Porto
No ventre de granito da cidade
onde o Rio Douro aprende a ser espelho,
nasci.
Não foi apenas um nascimento —
foi um pacto silencioso
com o nevoeiro da manhã,
com o cheiro antigo das pedras molhadas,
com o rumor das histórias
que sobem pelas ruas íngremes
até às janelas abertas.
O Porto não é uma cidade:
é um coração feito de pontes.
E em cada travessia da Ponte Dom Luís I
aprendi que crescer
é também atravessar medos,
ventos,
e silêncios.
Fui menino nas margens do Douro,
onde os barcos carregados de Vinho do Porto
pareciam levar embora
segredos antigos
e trazer de volta
o sabor do mundo.
As ruas ensinaram-me o passo,
as gentes ensinaram-me o olhar —
franco, direto,
com aquela ternura escondida
que só o Norte sabe guardar.
Porto,
meu berço de pedra
e meu crescimento de vento.
Mesmo quando parto
levo-te comigo
como se leva o mar nos olhos:
invisível,
mas sempre a chamar.
Porque quem nasce no Porto
não aprende apenas a viver —
aprende a resistir,
a amar sem medo
e a regressar
mesmo quando o caminho
parece longo demais.
E dentro de mim,
como um eco eterno,
continua a correr
o mesmo Douro
que um dia
me viu nascer
Jorge Levi