JORGE LEVILeviarte · Bailarino · Coreógrafo · Realizador

Smith College

Em Smith College
o meu corpo deixou de ser apenas corpo.

Ali começou a tornar-se
pensamento,
respiração,
mistério em movimento.

Entrei nos estúdios
como quem entra numa casa desconhecida,
levando comigo apenas
a intuição ardente
de que dentro de mim
havia uma dança à espera de nascer.

E então vieram os mestres.

Não me ensinaram apenas passos —
tocaram o invisível que vive entre um gesto e outro.
Corrigiam um ombro,
uma linha,
um silêncio no ar…

e nesse toque quase mínimo
o meu corpo despertava
como se cada músculo
descobrisse uma nova forma de sentir o mundo.

Havia algo de profundamente íntimo
nessa aprendizagem.

O suor,
a respiração partilhada com o espaço,
o chão de madeira recebendo o peso do corpo
como um amante paciente.

Aprendi que técnica
é uma forma refinada de desejo:
o desejo de ir mais fundo,
mais preciso,
mais verdadeiro.

Ali cresci.

Não apenas em virtuosismo,
mas em consciência do corpo
como território de revelação.

Os mestres abriram-me portas
que não conduziam apenas à coreografia —
conduziam ao silêncio interior
onde nasce o gesto inevitável.

E ainda hoje,
quando o meu corpo inicia um movimento
antes mesmo de o pensamento chegar,

sei que algo daquele lugar
continua vivo em mim.

Porque há aprendizagens
que não ficam na memória.

Ficam na pele.
No ritmo do sangue.
Na curva de um braço
que se levanta
como quem toca o invisível

Jorge Levi