Hino à ARTE e ao AMOR
Poderia viver sem teto,
sem o costume morno de uma mesa,
sem a voz conhecida do sangue
a chamar-me desde a infância.
Talvez sobrevivesse
ao silêncio de uma casa vazia,
aos invernos sem abraço,
às cidades onde ninguém pronuncia o meu nome.
Não sei.
Mas sem arte…
não.
Sem arte,
o mundo seria apenas matéria,
um relógio cansado
a repetir horas sem alma.
Porque a arte
me respira.
Está na ferida e na cura,
na sombra e na luz que insiste.
É o gesto invisível
que transforma a queda em dança,
a memória em pintura,
o desejo em música,
e a dor em algo que ainda pode ser belo.
Sem arte,
os olhos olhariam
mas não veriam.
O corpo existiria
mas não arderia.
E eu não vim ao mundo
só para existir.
Vim para sentir,
para criar incêndios suaves na escuridão,
para tocar o eterno
ainda que seja apenas por um instante.
Por isso,
sem amigos… talvez.
Sem família… quiçá.
Sem casa… quem sabe.
Mas sem arte,
jamais.
e sem amor?
Sem amor,
a música teria técnica
mas não tremor.
A pintura teria forma
mas não pele.
A poesia teria palavras
mas não sangue.
E quando existe,
até o silêncio tem sentido.
Até a perda ilumina.
Até o medo se torna humano.
Não.
Sem amor também não saberia viver.
Talvez por isso
a arte exista:
para que o amor
não morra de todo.
Jorge Levi